Seminário NEMES

Ementas


Disseminações religiosas da condição humana no judaísmo: Lutando com Deus em um mundo imperfeito

Arlindo Nascimento Rocha (Mestrando)

As “dimensões religiosas da condição humana” no judaísmo devem ser buscadas dentro da complexa teia de camadas múltiplas da sua literatura tradicional, que se inicia com a coleção de narrativas bíblicas, leis, profecias e escritos de sabedorias a maior parte dos quais editadas nos séculos V e VI a,C. A categoria da “condição humana” não é nativa ao pensamento tradicional judaico, nem uma questão fundante, geradora, que na literatura religiosa judaica, seja trada independentemente. Assim, nosso objetivo ao tratar esse tema, é analisar algumas suposições sobre a condição humana, através de um conjunto de tópicos importantes à tradição, tendo Deus como Criador e soberano do mundo; a revelação de Deus na Bíblia; e os mandamentos (Torá) que guiam o viver humano, a resposta a Deus, mediante a fidelidade, obediência e estudo da Torá; responsabilidade e fraqueza humana; desobediência humana mediante o pecado, e, por último, a justiça e a misericórdia de Deus na punição do pecado.

__________________________________________________________________________________________________________________________________________________________

Reflexões sobre o envelhecimento a partir da filosofia do judaísmo de Abraham Joshua Heschel

Profa. Dra. Maria Cristina M. Guarnieri

No texto Modern Jewish Philosophy (Morgan & Gordan), Kenneth Seesskin comenta – em seu texto intitulado Ethics, Authority and Autonomy – que, se ele estiver certo, o judaísmo reconhece a dignidade humana mesmo quando o ser humano falha em viver de acordo com suas obrigações, e esse seria um tema fundamental da tradição judaica. A. J. Heschel (1907- 1972), em sua filosofia, sempre está preocupado em nos apontar que na vida existe um “sentido além do absurdo”, que o sentido da vida “é construir a vida como se fosse uma obra, existência”. A partir dessa perspectiva, pretendemos trabalhar com o envelhecimento na perspectiva hescheliana de dignidade, preciosidade e celebração. Para o pensador judeu, é importante considerar a vida como uma celebração e isso seria o antídoto à uma vida superficial e vazia, algo que parece definir o envelhecimento hoje. Heschel estabelece que nosso problema é duplo em relação ao envelhecimento: a atitude da sociedade em relação aos idosos e dos próprios idosos em relação ao envelhecer. Nossa atitude estaria afastada do sublime, do mistério e da glória, o que resultaria na sensação de ser inútil e rejeitado, na sensação de vazio e de tédio, na solidão e no medo do tempo. Ao analisar esses males espirituais básicos da velhice, segundo ele, concluiríamos que três coisas são realmente necessárias para se alcançar a sensação de uma existência significativa: “Deus, uma alma e um momento”.

__________________________________________________________________________________________________________________________________________________________

Holocausto e memória em “Diário da Queda” de Michel Laub

Isadora G. Sinay (Mestre)

Diário da Queda, romance do escritor brasileiro Michel Laub, conta a história de um protagonista judeu sem nome e o que acontece com sua vida após ele e seus colegas de escola deixarem cair no chão, e se machucar gravemente, o único aluno não judeu de sua escola judaica. Ao mesmo tempo, o livro entrelaça a história da queda e da escola judaica com o avô do protagonista, sobrevivente de Auschwitz, e o que isso representa em sua vida. A partir de um ato de crueldade, e da saída voluntária de um mundo exclusivamente judeu, o personagem passa a se questionar a respeito do significado do holocausto, do legado dessa lembrança e de sua própria identidade judaica.

O romance coloca o holocausto como questão e a identidade judaica do personagem, especialmente sua relação com esse fato que é um pilar tão significativo, como problemática e fluída. Assim, ele levanta questões essenciais do judaísmo contemporâneo e especialmente em sua relação com os não-judeus, o legado da história e a memória. A comunicação propõe uma breve análise do livro a partir desses eixos.

__________________________________________________________________________________________________________________________________________________________

A “Crucificação Branca” de Marc Chagall

Profa. Dra. Wilma Steagall De Tommaso

A comunicação tem como objetivo apresentar a “Crucificação Branca” (1938), obra de Moshe Shagal – nome mais tarde transformado para o francês Marc Chagall (1887-1985) -, artista judeu nascido em Vitebsk, hoje Bielorrússia. Cresceu na atmosfera fechada de uma comunidade judia da Europa Oriental, que ainda era sujeita a perseguições e ferozes explosões de violência oficial ou velada; o artista, porém, sempre conservou suas tradições. Viveu a Primeira Guerra na Rússia, mas estava em Paris quando, a partir de 1933, o clima de guerra e de perseguição aos judeus repercutiu em sua pintura, momento em que os elementos dramáticos, sociais e religiosos passaram a tomar vulto. Retratou a perseguição sofrida através do uso de cores escuras em diversas obras, também o tema da solidão dos judeus na cidade. Seu trabalho reagiu à brutal discriminação dos judeus e a Shoah, pintando novas imagens de Cristo morto e crucificado, como metáforas do sofrimento, que transparece na obra que será analisada, a “Crucificação Branca”, na qual demonstra seu temor pelos acontecimentos do mundo. Chagall vai exprimir sua poli-identidade por vias escondidas como, por exemplo, nas locuções em yiddish, não compreendidas pelos franceses que liam suas imagens como fantasias poéticas. Longevo, faleceu com 97 anos em Saint Paul de Vence, França. Considerado um dos maiores pintores do século XX, sempre se manteve ligado às tradições hassídicas.

__________________________________________________________________________________________________________________________________________________________

“The Jewish Century” de Yuri Slezkine e o destino das filhas de Tevye

Anna Paula Haddad (Mestranda)

Yuri Slezkine (1956-) é russo naturalizado americano, professor de História na Universidade da Califórnia, Berkeley. Em The Jewish Century (2004), Slezkine desenvolve a tese de que, numa divisão interna das sociedades tradicionais, temos dois grupos: os produtores de alimento e os provedores de serviço, cada qual mantendo-se conflituosamente distinto e em processo de constante tensão identitária. Os provedores de serviço seriam os Mercúrios em referência ao deus Hermes (o mensageiro, o do comércio, dos negócios, e das mediações). A identidade apolínea (Apolo, deus da harmonia, equilíbrio, razão) refere-se aos agricultores e guerreiros. Trabalhando com as profissões mais frequentes, composição da moral, práticas religiosas e outras características de pequenos povos em “diáspora”, Slezkine identifica paralelo entre a condição dos judeus como outsiders e a de outros grupos. O estudo culmina com a proposta de que no século do nacionalismo, do comércio, da mediação, da transformação e do empreendedorismo, foram os judeus os mais bem-sucedidos em se tornarem modernos.

Pretendo apresentar a tese central do livro e uma breve descrição dos três destinos das filhas de Tevye (metáfora utilizada no livro, ver Sholem Aleichem): Moscou, América, Israel e seu significado para a presente “identidade judaica”.

__________________________________________________________________________________________________________________________________________________________

Antissemitismo e Jung

Mirella Giglio (Mestranda)

Carl Gustav Jung (1875-1961) foi um psiquiatra suíço formado em medicina pela Universidade de Basiléia. Iniciou sua carreira no Hospital de Zurique com Bleuler como o seu mentor e, em 1909, conhece Sigmund Freud. Em 1912, Jung e Freud rompem a amizade, mesmo assim Jung continuou com seus estudos e desenvolveu uma psicologia profunda. Ao longo desses estudos, Jung elaborou conceitos como sombra, anima/animus, arquétipos, processo de individuação, entre outros específicos da sua obra.

Em 1933, Jung aceita o convite para ser o presidente da Sociedade Médica Alemã para Psicoterapia (German General Medical Society for Psychotherapy). Essa decisão gerou comentários e acusações de que Jung era antissemita. Jung acreditava que nessa posição poderia ajudar seus colegas judeus já que permitiria que eles se tornassem membros da Sociedade, algo que não acontecia quando o controle era determinado pelos Nazistas. Essa ideia de Jung não foi muito bem vista, e ele continuava sendo criticado e chamado de antissemita. No mesmo ano publicaram um texto no periódico da sociedade (The Zentralblatt) falando a favor da ideologia Nazista e utilizando a teoria de arquétipos do Jung. Até hoje persiste a controvérsia sobre Jung ser antissemita, e vários estudiosos tentam provar os seus pontos de vista sobre o assunto.

__________________________________________________________________________________________________________________________________________________________

A internet como ferramenta de expansão do papel da mulher no judaísmo

Carolina de La Rosa Lemos (Mestranda)

O objetivo da apresentação é explanar o papel das mulheres na religião mediante a expansão da Internet como forma de propagar e esclarecer a religião judaica ortodoxa e suas leis. Será utilizado um estudo de caso, Yoatzot Halacha, o qual relata como funciona o sistema de consultoria online fornecido por mulheres a mulheres judias que possuem dúvidas em relação às leis judaicas. De acordo com o autor, algumas mulheres não se sentem à vontade em fazer perguntas de cunho íntimo como, por exemplo, sobre o período menstrual, e se sentem mais à vontade de fazê-las a outras mulheres. Esse canal de comunicação é endossado por rabinos, que são consultados pelas administradoras do site quando necessário. A Internet tem possibilitado a muitas mulheres judias ortodoxas obter um novo papel dentro da religião e a influenciar a vida de mulheres em muitos setores do judaísmo, tanto online como off-line.

__________________________________________________________________________________________________________________________________________________________

Menachem Mendel Schneerson, o sétimo Rebbe de Lubavitch – Messias?

Andréa Kogan (Doutoranda)

Schneerson (1902-1994) nasceu em uma família de rabinos e eruditos na Ucrânia, teve uma educação laica, e sempre identificou-se com o movimento hassídico. Seu sogro, no começo do século XX, era o responsável pelo movimento hassídico Chabad-Lubavitch, já com sede na cidade de Nova Iorque. Quando o sogro falece (em 1944) ele assume a liderança do movimento. Do começo da década de 1950 até a sua morte, o movimento cresce, centenas de livros são publicados propagando as ideias do criador do movimento hassídico (Baal Shem Tov), dos rabinos líderes anteriores e do próprio Rebbe. Há também a figura importante dos shelichim (emissários), espalhados no mundo para trazer mais judeus ao movimento, atendimentos pessoais e coletivos na sinagoga sede (no bairro do Brooklyn, em NYC), farbrengens (reuniões) e toda uma filosofia voltada ao sentimento de pertença do povo judeu, à espiritualidade crescente, ao estudo de obras hassídicas, ao exercício da caridade, à observação dos rituais judaicos e etc. Além disso, Schneerson realiza importantes campanhas para o cumprimento das mitzvot e para que o judaísmo se dissemine no mundo. Durante esses anos, os hassídicos Chabad, pelo carisma, popularidade e insights “mediúnicos” do Rebbe, passam a crer que ele é o próprio messias. Mesmo depois de sua morte a imagem ainda permanece e sua figura não perde a força. Já que o Rebbe não teve herdeiros diretos e que não há um rabino tão importante quanto ele, o movimento segue sem líder. Menachem Mendel ainda é considerado por alguns o próprio messias, seus livros são fonte de estudo e seu túmulo (também na cidade de Nova Iorque) – conhecido como Ohel Chabad é hoje um local de peregrinação.

__________________________________________________________________________________________________________________________________________________________

Benjamin Fondane: o homem “só”

Profa. Dra. Gabriela Bal

Benjamin Fondane nasceu na Romênia, em Jassy, no ano de 1898, e morreu na câmara de gás em Auschwitz-Birkenau, no ano de 1944. Poeta, filosofo, dramaturgo, cineasta e crítico literário, escolheu o pseudônimo artístico Fundoianu ao ingressar na literatura ainda na Romênia (em substituição ao seu nome de nascimento, Benjamin Wechsler) e, ao se mudar para a França em 1923, veio a assumir o nome Benjamin Fondane.

Impressionam a sua atualidade, sua perspicácia e nevrálgica sensibilidade. Seus escritos, literários e filosóficos, dialogam de maneira a expor impressões e sentimentos que não poderiam permanecer ocultos. Sua agonia era a agonia de seu povo e do destino que ele antevia e antecipava. Sua consciência era a “consciência infeliz” (La conscience malheureuse – título do um de seus livros) do exilado, do sem lugar, do errante em terras de deserto e desterro. Seu conhecimento revelava sua dor, a dor da consciência que reconhece que o “saber” é separação e distância. A ultrapassagem da racionalidade enquanto anseio se transforma em poesia e o poeta se torna filosofo especialmente para “defender a sua poesia”.

Um judeu de seu tempo, foi discípulo de Léon Chestov (1866-1938), filosofo ucraniano, assim como seus amigos e conterrâneos, Émile Cioran e Stéphane Lupasco. A “luta contra as evidências” de Chestov se acentua em Fondane. A partir de seu dialogo interrompido com Lupasco (L’Être et la conaissance – Essai sur Lupasco), as questões relativas aos limites da razão, ao paradoxo e ao princípio de contradição, vêm à luz.

Trazer Fondane a este seminário temático sobre “Judaísmo e o Mundo Moderno” é, de alguma maneira, reascender a lembrança das muitas vozes que, como a de Fondane, foram caladas (e mortas). Sua vasta obra, no entanto, não cala e se torna cada vez mais atual na medida em que a história, necessária e incansavelmente, se repete. Seu “grito” ecoa ainda hoje, como se eterno. Seus escritos não são escritos sobre religião, nem sobre a religião judaica, mas sobre o Ser judeu.

__________________________________________________________________________________________________________________________________________________________

A dimensão messiânica judaica e a filosofia moderna

Marcia Marciano (Mestranda)

Podemos encontrar elementos dentro do legado messiânico judaico que podem ser utilizados a fim de desafiar os sistemas filosóficos que obstruem o futuro? A partir da provocação feita por Pierre Bouretz, veremos como a dimensão utópico-libertária da tradição messiânica judaica está presente, mesmo que de diferentes formas, no pensamento de Benjamin, Scholem, Rosenzweig e outros.

__________________________________________________________________________________________________________________________________________________________

Franz Rosenzweig e seu método judaico

José Luiz Bueno (Doutorando)

Franz Rosenzweig afirma explicitamente que o objeto de estudo de sua obra maior, A Estrela da Redenção, não é o judaísmo pois o judaísmo seria o seu método, não o seu objeto.

Esta afirmação do autor pode servir como norte de investigação para trazer à luz aspectos de seu pensamento que podem enriquecer não apenas o conhecimento de sua obra, mas também oferecer instrumentos para pensar a sua realidade existencial bem como a realidade presente, no que se refere às possibilidades da presença da religiosidade em um mundo moderno secularizado e, aparentemente, pouco afeito a questões metafísicas.

O chamado método judaico de Rosenzweig teria possibilitado que o pensador desenvolvesse sua visão dessa questão e estabelecesse um pensamento não-metafísico associado a uma religiosidade de cunho pragmático, ambos lhe permitindo enfrentar a modernidade a partir de seu pensamento judaico, e não “apesar dele”.