Seminário NEMES

Ementas 2013


A incorporação de um telos revolucionário e o abalo na fé no projeto de esquerda brasileiro

Mariana Lucas Setúbal  (Mestranda)

Esta comunicação pretende analisar o distopia política presente no filme Deus e o Diabo na Terra do Sol (1964) e Terra em Transe (1967) de Glauber Rocha, através do diálogo que se dá por meio de uma análise daquilo que circunscreve o projeto estético do Cinema Novo, suas ambições política e estéticas. A partir disto, aprofundar a análise dos filmes em questão, seus aspectos formais nos quais a importância das imagens dialéticas — conceito de Walter Benjamin — torna-se elemento ímpar para compreender as ambições políticas de Glauber Rocha nos filmes em questão.

O intuito da discussão é traçar, naquilo que tange, o dialogo formal inscrito nos filmes de Glauber Rocha com o contexto político da época, e evidenciar o abalo da fé no projeto de esquerda brasileiro. A incorporação de um telos revolucionário.

O materialismo histórico torna-se um método que identifica na história um tipo de máquina que conduz automaticamente ao triunfo do socialismo. Para esse materialismo mecânico, o desenvolvimento das forças produtivas, o progresso econômico e as lutas históricas levam necessariamente à fase final do capitalismo e à vitória do proletário.

Se Deus e o Diabo na Terra do Sol é um filme de esperanças e utopias, Terra em Transe é um filme agônico, distópico. O filme é uma parábola da crise ideológica e politica latino Americana.

Trailers:  Deus e o Diabo na Terra do Sol  |  Terra em Transe

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O bem e o mal nas religiões afro-brasileiras

Nathalie Hornhardt  (Mestranda)

A presente proposta de comunicação tem como objetivo fazer uma análise filosófica e religiosa da existência de axiologia moral nas religiões afro-brasileiras, a partir do documentário Pierre Verger: Mensageiro entre Dois Mundos, que tem direção de Lula Buarque de Holanda.

O filme narra as experiências de Pierre Verger em Benin, África e na Bahia, Brasil. O etnólogo francês pesquisou em abundância e inclusive foi iniciado no Candomblé e na religião Yorubá

Utilizando o filme como guia, o trabalho pretende apontar a possível existência de bem e mal nessas religiões tradicionais. A possibilidade de uma certa similaridade das religiões afro-brasileiras com as religiões primitivas e pré-históricas, assim como a diferenciação entre a moral inserida nessas religiões e no cristianismo. De fato, a presença de bem e mal é identificável nas religiões tradicionais? É possível fazer uma aproximação entre religiões pré-históricas e afro-brasileiras? O arqueólogo e pesquisador da pré-história, Brian Hayden, aponta em sua obra Shamans, Sorcers and Saints: A prehistory of Religion que, para compreender as religiões pré-históricas, é preciso compreender as religiões tradicionais, assim como o contrário. A moral era similar nessas duas vertentes?

Os hábitos e costumes impregnados na religião Yorubá eram completamente diferentes dos empregados pelos europeus após a colonização. Com a chegada dos colonizadores e da moral cristã na África, a religião tradicional começou a ser vista de outras maneiras, os europeus impuseram sua moral entre os africanos, e os rituais importantes deixaram suas raízes de lado e passaram a adquirir uma nova conotação.

Trailer:  Pierre Verger: Mensageiro entre Dois Mundos

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Amor Pleno é dar o que não se tem?

Maruzania Soares Dias  (Mestre)

O provocante filme de Terrence Malick, Amor Pleno (To The Wonder, 2013), incide sobre a temática dos encontros e desencontros em diferentes relações, as quais trazem à tona inquietações existenciais. Estas procuram focar as conturbadas relações humanas expressas pelos personagens, e são intensificadas pela incomunicabilidade e pelos detalhes dos diferentes ambientes onde transcorrem os dramas. De uma suposta plena felicidade no início do filme ao desgaste e dissabores, Malick leva os personagens a revisar seus conceitos de amor e felicidade e, consequentemente, ao enfrentamento do turbilhão das “incertezas sobre as possibilidades de plenitude da vida”.

No intricado caminho do estar no mundo, o ser humano, este ser de relações, é o único entre os seres vivos que pode acreditar no que costuma dizer: “Estou completamente sozinho…”. Mas, o que isso tem a ver com o amor? Como já disse Lacan, amar é dar o que não se tem, isto é, amar é reconhecer sua própria falta e dá-la ao outro, colocar a falta no outro. Tal hiância não pode ser preenchida pelo que temos (bens, posses). Dar o que não temos é ir além de nós mesmos.

O amor, tanto na filosofia de Platão quanto na psicanálise lacaniana, é concebido como falta. Entretanto, enquanto Platão pontua o amor, enquanto falta, como desejo e inspiração para a completude (alcançar um Bem), Lacan inscreve o amor como falta constante em busca de completude – que, por ser impossível, não cessa de não se escrever. Essa falta na constituição do sujeito leva-o a desejar reencontrar o amor perdido, mas este permanece como falta.

A cinematografia de Amor Pleno permite-nos adentrar a questão do amor como elemento intermediário entre o sensível e o inteligível, entre o humano e o divino.

Trailer:  Amor Pleno

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Memória sob penumbra: a alma que reage à criaturalidade em Blade Runner

José Altran  (Mestrando)

Ainda que o distópico sci-fi Blade Runner (1982) tome como enredo o conflito entre androides criminosos e homens a persegui-los, evoca dilemas existenciais atemporais onde suspende-se antagonismos. O que, afinal, faria do homem natural uma criatura mais divina que aquela criada pelo homem? Poderia este forjar consciência além-máquina equiparando-se a Deus? A memória aqui é apresentada como o verdadeiro substrato humanizador do ser, que acende uma luz a conferir-lhe a individualidade negada pela sombra de sua artificialidade: constitui sua alma – essência maleável, migratória e movedora. Pode ela relegar à penumbra uma origem profana e munir de valor ontológico a criatura que se legitima e se enleva ao aninhá-la (e privada da qual torna-se mero instrumento)?

Esta e outras questões a semear o filme dialogam com enunciados da filosofia antiga e concepções teológicas sobre “alma”. Inspirado no romance Do Androids Dream of Electric Sheep? (1968), de Philip K. Dick, suas referências religiosas são múltiplas e a mística tão quista pelo autor é amparada pela direção de Ridley Scott, na estética neo-noir da lúgubre Los Angeles de 2019 onde, enquanto etnias e religiões distintas se misturam, o neon dos painéis contrasta com a sombra cadente nos entremeios de cenário e personagens em noites que parecem ser eternas.

Trailer:  Blade Runner (sem legendas)  |  Site comemorativo dos 30 anos do filme (Warner Bros, inglês)

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Um prenúncio da escuridão: repressão, violência e ideologia em Michael Haneke

Jussara Almeida  (Mestre)

Gostando ou não, é difícil esquecer um filme de Michael Haneke. Talvez essa seja a primeira coisa que se possa dizer sobre seu trabalho, sem qualquer análise prévia de conteúdo. A natureza perturbadora de suas imagens, permeadas por crimes e violência – nem sempre explícita –, permanece alojada na memória, provocando o questionamento de conceitos que normalmente tentamos evitar a todo custo. Apesar disso, seu estilo de observação calma e minuciosa, e a insistência para que o espectador tire as suas próprias conclusões, são suas principais estratégias para direcionar o olhar para as grandes questões da vida humana.

Em uma espécie de pedagogia da imagem, Haneke parece tentar educar seu público para formas mais complexas de leitura, onde não há espaço para diagnósticos superficiais e conclusões de “pronta-entrega”. É como se sua obra ecoasse as palavras de Thomas Hardy ao considerar que precisamos dar uma boa olhada no pior, a fim de começarmos a nos livrar de nossas ilusões.

Como afirma Newton Bignotto, a geometria do mal é muito diferente daquela da natureza, e extremamente difícil de apreender, principalmente depois das grandes mudanças que caracterizaram o século XX. Haneke demonstra isso em seu enigmático e sombrio A Fita Branca (Das Weisse Band, 2009), onde explora, dentre outras coisas, como os segredos e as emoções reprimidas podem resultar em catástrofe. Nesse percurso, aponta também para o papel crucial da memória no entendimento de si mesmo e do mundo.

A partir disso, pretendemos explorar com Haneke a ideia de que a repressão provocada por uma disciplina excessivamente rígida, por humilhação constante e uma exigência obsessiva por pureza abrem espaço para a intensificação do sentimento de inferioridade e, consequentemente, da sombra na psique humana; e como esse processo pode gerar violência “sem sentido” e estabelecer as bases para a futura formação de uma ideologia totalitária.

Trailer:  A Fita Branca

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Devaneios da escuridão: As mulheres de Lars von Trier

Flávia Arielo  (Mestranda)

A cinematografia de Lars von Trier é heterogênea no tocante à estilística, porém, em relação à temática, pode-se afirmar a existência de certa continuidade. Essa comunicação se propõe a analisar as possíveis mudanças e permanências ocorridas a partir das personagens femininas concebidas pelo cineasta ao longo de três longas-metragens: Ondas do Destino (Breaking the Waves, 1996), Dançando no Escuro (Dancer in the Dark, 2000) e Anticristo (Antichrist, 2009).

As personagens escolhidas para abordar brevemente os caminhos escolhidos por Lars Von Trier nortearão os percursos da própria temática escolhida pelo diretor nos respectivos filmes. Com Bess, de Ondas do Destino, a temática religiosa e redentora, assim como uma possível redenção através da protagonista Selma, de Dançando no Escuro. Com a inominada protagonista de Anticristo, é perceptível uma mudança de olhar e sistema de mundo, sendo este o lugar da permanência e gestão do mal.

Além da proposta de nortear as temáticas fílmicas através das protagonistas, dando voz a estas personagens, há que se traçar, assim, um paralelo entre essas obras de Von Trier, suas mutações e constâncias.

Trailers:  Ondas do Destino  (sem legendas)  |  Dançando no Escuro  |  Anticristo

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A filosofia da religião em Sobre Meninos e Lobos

Talyta Carvalho  (Mestre)

O cinema, enquanto obra de arte, é aberto às mais diversas leituras. Para os propósitos desse seminário, focaremos nossa apresentação em uma leitura permeada pela filosofia da religião do filme Sobre Meninos e Lobos (Mystic River, 2003) de Clint Eastwood. A obra de Eastwood narra o reencontro de amigos de infância a partir do evento da morte trágica da filha de um deles. Tal evento não apenas reunirá esses amigos, como também os fará retomar suas próprias questões trágicas enterradas no passado. Partiremos para uma análise do enredo e personagens pautada pelos elementos de uma abordagem da religião cristã. Entrarão em nossa discussão questões como redenção, pecado e natureza humana, vingança e perdão.

Nosso objetivo é colocar em diálogo tensões morais e cristianismo por meio das interações entre os personagens. Seria possível perdoar? Haveria algum ponto de intersecção entre vingança e virtude? O silêncio seria uma condenação auto-imposta por aqueles que acreditam estar fora do alcance de qualquer redenção? Haveria espaço para justiça divina ou só é possível se fiar na justiça humana, fornecendo a esta uma “roupagem” de tolerância por parte de Deus? Como explicar a possibilidade de pessoas que comentem atos terríveis receberem a Graça? Santo Agostinho – e sua reflexão sobre a natureza humana e a Graça – será, nesse sentido, indispensável a nossa proposta de comunicação.

Pensamos que tal diálogo seja fundamental para entendermos o debate moral e, nesse sentido, Clint Eastwood nos oferece um retrato da condição contemporânea que nos possibilita, na medida em que uma comunicação pode comportar, pelo menos esboçar algumas interpretações e respostas.

Trailer:  Sobre Meninos e Lobos

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Fanny e Alexander, o bispo Vergerus e a narrativa obscura

Isadora Sinay  (Mestranda)

A apresentação propõe-se a analisar o filme Fanny e Alexander (1982), focando-se sobretudo no personagem do bispo Vergerus. No filme, Ingmar Bergman apresenta duas possibilidades de narrativas para a vida humana, duas formas de se lidar com o abandono e a frustração. O personagem do bispo representa a narrativa obscura, aquela ligada à primeira reação humana de fechar-se em si mesmo e em seu egoísmo.

O bispo representa ainda a inadequação entre um eu verdadeiro e a máscara social: sua violência e crueldade subsistem por baixo da aparência plácida de pastor benevolente, mas o personagem é pego no vão entre essas duas identidades e não consegue adequar-se a elas. Vergerus representa o que há de obscuro no universo de Bergman, a tendência humana não apenas para a indiferença, mas para a crueldade e a frieza, em oposição a luminosidade da família Ekhdal.

Trailer:  Fanny e Alexander

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Ainda que eu ande no vale da sombra da morte: luz e escuridão no filme O Sétimo Selo de Ingmar Bergman

Andrey Albuquerque Mendonça  (Mestre)

A expressão da literatura sapiencial hebraica, título desta comunicação, é atribuída ao Rei Davi. Ela retoma algo primordial na experiência do povo judeu, a saber: a presença divina iluminadora em meio à escuridão existencial.

Ingmar Bergman, cineasta sueco com uma vasta obra, é herdeiro da tradição judaico-cristã. De berço Protestante luterano, filho de pastor, sua experiência religiosa aparece em sua obra assim como nos escritos de Lutero (monge agostiniano, biblista que iniciou a Reforma Protestante no séc. XVI). Em meio às trevas em que estão mergulhados os seres humanos (o pecado e a queda), o Deus abscondido se revela na figura do Cristo crucificado, cuja esperança nos remete ao terceiro dia após sua morte – a ressurreição.

O ser humano que busca sentido e direção na luta contra o inimigo supremo – a morte – é convidado à jornada existencial da fé, e, nessa caminhada, a humanidade que se encontra com a morte, em jogo inescapável, pode viver em um instante a presença da graça e a esperança de uma redenção.

Nosso objetivo através desta comunicação é perceber, através do enredo do filme O Sétimo Selo (1957), as nuances da jornada humana que, entre a vida e a morte, a busca de sentido e a falta de respostas, a crença e o ceticismo, contempla, em um instante no tempo, a luz do mistério de Deus.

Trailers:  O Sétimo Selo  |  Filme completo e legendado (Youtube)

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Suicídio: possibilidade à liberdade

Fabiano de O. Mina  (Mestre)

“Só há um problema filosófico verdadeiramente sério: o suicídio”. Esta é a famosa frase do filósofo Albert Camus, problema central da obra O Mito de Sísifo. Também problematizada por Sêneca, Santo Agostinho, Tomás de Aquino, Rousseau, Kant, Schopenhauer, Nietzsche, Emil Cioran, dentre outros. E é a partir deste último que a presente comunicação trata.

O suicídio será problematizado no filme The Sunset Limited (TV, 2011), a partir da obra Nos cumes do Desespero (Hedra, 2012), de Emil Cioran. Tanto no filme como na obra deste fascinante pensador romeno, o que está em jogo é se o suicídio deve ou não ser tido como possibilidade única da liberdade humana. Vivendo num mundo caótico, contingente, cheio de jogos de palavras e significados efêmeros, filosofias e ideologias de gabinete, até que ponto o sujeito atende ao chamado da escura e profunda realidade niilista, proposto por Cioran e por White (filme)? O suicídio é fuga, covardia ante a existência, ou resultado possível do enfrentamento do Nada: tanto teórico como prático? Para Cioran, aqueles que não levam a sério essa possibilidade de vir a suicidar-se estão longe de viver a própria liberdade, a vida.

A peça The Sunset Limited (2006), escrita por Cormac McCarthy, foi adaptada para a HBO pelo próprio escritor, e é contracenada por Tommy Lee Jones (White), que também dirige, e Samuel L. Jackson (Black). Um filme de intenso diálogo do início ao fim, onde o suicídio é o combustível que norteia o debate entre fé e niilismo.

Trailer:  The Sunset Limited


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