Seminário NEMES

Ementas 2008


A distância insuportável de Deus em Mechthild de Magdeburg

Profa. Dra. Maria José Caldeira do Amaral

Este ensaio tem como objetivo propor uma discussão sobre o mal que Mechthild de Magdeburg, mística medieval e beguina do século XII relata como a experiência da alma “que ama na distância insuportável de Deus”, condição da alma “pior que descer ao inferno”, a partir do conceito de mística como experiência direta da presença de Deus, extraído de sua obra Das FlieBende Lichit der Gottheit.

__________________________________________________________________________________________________________________________________________________________

O Mal no Cristianismo Ortodoxo

Doutorando Roberto de Almeida Gallego

Pretende-se enfocar o problema do Mal no âmbito do Cristianismo Oriental: a recusa do dualismo cósmico, do dualismo antropológico e do dualismo moral e a ênfase no pecado – o livre consentimento do ser humano ao mal. Ascese e vigilância do coração em busca da hesychia, a luz tabórica e a experiência das energias de Deus.

__________________________________________________________________________________________________________________________________________________________

A visão do Mal segundo a philocalia dos Monges Népticos do Oriente

Doutoranda Wilma Steagall De Tommaso

Satan est tombe et s’est brisé, mais notre néglicence ne l’en rend pas moin fort et il s’enorgueillit de nous. (Gregoire Le Sinaïte)

Os népticos são monges que se abandonam à vida ascética, no entanto, têm como preocupação maior a sobriedade e a vigilância. A primeira etapa da vida espiritual é a prática (práxis) que visa libertar o homem das paixões e torná-lo capaz de amar. Diante da angústia da morte ou da sua negação, o ser humano se depara com o primeiro empecilho. Porém, a ganância – a ambição exacerbada – e o orgulho – a vanglória do espírito – são os dois demônios mais poderosos que se opõem à práxis, às obras do amor. Será apresentada a visão do mal na philocalia dos monges népticos, passando pela lente atual de Olivier Clément e Jacques Touraille, e dos escritos dos Pais do Deserto.

__________________________________________________________________________________________________________________________________________________________

Marta-Maria : fendas de uma desfiguração

Doutoranda Carla Saudades Lloret

Neste texto, o Mal é abordado nos domínios da aparência com o intuito de pensar a fotografia contemporânea, acolhida nos desdobramentos de uma zona de opacidade, possibilitadora para o acontecimento da obra. Partindo da poética visual de Marta Maria Perez Bravo, artista cubana que vive no México, o conceito heideggeriano de aletheia irá permear esta discussão em sua dimensão ocultante-desocultante, enquanto retenção que se encobre para o que se apresenta, se mostra. Vela-se na presença que faz emergir, e desvela-se enquanto retração, subtração, nesse mesmo lugar. O conceito de Parmênides de “vislumbre” – do ver a partir de dentro do ser – transpondo o ordinário para o extraordinário, enquanto lugar do contemplar, será apropriado para enriquecer esta reflexão, ao aproximarmos a condição apofática eckhartiana presente nas imagens da artista.

__________________________________________________________________________________________________________________________________________________________

A estupidez do Mal

Mestrando Martim Vasques da Cunha

A apresentação pretende introduzir a discussão que o filósofo alemão Eric Voegelin (1904-1985) fez a respeito do evento histórico do Nazismo, dentro do ciclo de palestras chamado Hitler e os alemães, realizado em 1964, em que são expostos os conceitos de “estupidez inteligente” e “estupidez criminosa” como exemplos concretos do Mal no século XX.

__________________________________________________________________________________________________________________________________________________________

Rosa Branca: resistência e liberdade na Alemanha nazista

Doutoranda Marli Pirozelli N. Silva

O que nos permite resistir ao mal? Esta comunicação tratará da trajetória de alguns jovens do Grupo Rosa Branca que se opuseram ao nazismo através da divulgação de panfletos. Da percepção e fortalecimento da própria humanidade através da beleza, amizade e religiosidade ao enfrentamento do mal até morte.

__________________________________________________________________________________________________________________________________________________________

A massa como instrumento do Mal

Mestranda Ana Enésia Sampaio Machado

Falaremos sobre os escritos de Viktor Frankl a respeito da neurose de massa. Nosso foco de estudo será o indivíduo que, como parte de um grupo, age como opressor ou destruidor do outro em nome da construção de um mundo mais justo.

__________________________________________________________________________________________________________________________________________________________

As tentações de Jesus e a modernidade

Doutorando Diego Klautau

Em seu livro Jesus de Nazaré (capítulo 02), Joseph Ratzinger trabalha com as tentações de Jesus pelo demônio e os fundamentos da modernidade em sua afirmação do homem como ser que dispensa Deus. A partir dos conceitos de concupiscências, desenvolvidos por Santo Agostinho em A Verdadeira Religião, e seus escritos sobre a graça, é possível entender uma crítica ao afastamento do homem de Deus. O Mal, a partir do entendimento de Agostinho, busca desviar o desejo do homem de Deus para os bens temporâneos, seja a materialidade, o conhecimento presunçoso ou o orgulho do poder. A possibilidade de Jesus de Nazaré resistir aos impulsos presentes na condição humana denota seu caráter divino, e sua relação única com Deus, revelando os dramas do Mal nessa condição humana.

__________________________________________________________________________________________________________________________________________________________

O mal inefável de Emmanuel Levinas

Doutoranda Maria Angélica Santana

O mal é a parte inconsciente da ideologia de uma sociedade, conjunto de sentimentos, juízos e atitudes que acarretam e justificam a discriminação, a divisão, a segregação e a exploração de um grupo por outro. O perigoso é a malignidade desse mal, e a violência baseada no desprezo pelo outro e no poder para lhe causar danos. O mal não é, pois, uma questão abstrata, metafísica, tema da moda, como alguns pretendem fazer crer. O mal está aí, na forma violenta das nossas sociedades.

__________________________________________________________________________________________________________________________________________________________

Darwinismo à sombra da “noite coletiva e cultural”

Mestrando Hugo Marcelo Ribeiro Barbosa

A Torre de Babel de Michael Oakeshott descreve o pragmatismo de uma sociedade que se legitima e se estrutura ao redor do desejo de chegar ao paraíso. O homem moderno, apesar de comemorar sua liberdade pós-adâmica, anseia pela retomada do Jardim do Éden. O maior obstáculo para a construção do paraíso, pensado como um mundo perfeito sem dor ou sofrimento, são os limites impostos por uma ética transcendente, baseada na revelação de um Deus-amor. Inicia-se um processo lento e gradativo de desconstrução de Deus valendo-se da racionalidade humana. Esses são os pressupostos da simbiose estabelecida entre o ateísmo – na sua reedição mais virulenta, “o novo ateísmo” – e o Darwinismo, entendido não apenas como teoria científica, mas como sistema epistêmico. Tento interpretar esse fenômeno à luz do pensamento místico de Chiara Lubich em Noite Coletiva e Cultural.

__________________________________________________________________________________________________________________________________________________________

O Mal na obra de Machado de Assis: cristianismo versus condição humana

Doutoranda Viviane Cristina Cândido

A obra de Machado de Assis, marcada pelo ambiente cristão, reflete na visão de mundo muitas vezes bem humorada de seus personagens, na tensão entre a instituição religiosa e a correlata idéia do bem intrínseco, e a condição humana como portadora do mal. Nossa exposição tratará dessa tensão em duas de suas obras: Memórias Póstumas de Brás Cubas e no conto A Igreja do Diabo.

__________________________________________________________________________________________________________________________________________________________

Nas profundezas da alma

Doutorando Andrei Venturini Martins

Desejo aprofundar a relação da vontade e o Mal em Santo Agostinho. O amor é a mola mestra da vontade, todavia, é para onde tal amor direciona-se que encontramos o mal na concepção do bispo de Hipona. A vontade tende a absolutizar seu objeto amado: na descrição da ação da vontade encontramos o mal que permeia a condição humana depois do pecado.

__________________________________________________________________________________________________________________________________________________________

O bem e o mal na ética de Dietrich Bonhoeffer

Mestrando Roberto Pereira Miguel

Para a ética cristã, o conhecimento do bem e do mal é fruto da separação do ser humano em relação à sua origem, Deus. Na realidade dessa cisão, na qual o ser humano se entende como origem do bem e do mal, determinar ou julgar aquilo que é bom ou mau, mediante quaisquer leis ou princípios gerados em nossa própria consciência, é posicionar-se sempre como deus e contra Deus. É propósito desta apresentação abordar a reflexão de Dietrich Bonhoeffer a respeito desse tema, a partir de sua obra intitulada Ética.

__________________________________________________________________________________________________________________________________________________________

A tragédia grega e a questão do Mal

Doutoranda Ana Cláudia Patitucci

A comunicação pretende apresentar aspectos contidos na tragédia grega que possam contribuir para pensarmos a questão do Mal na condição humana.

__________________________________________________________________________________________________________________________________________________________

Mal e Liberdade em Kierkegaard e Berdiaev

Profa. Dra. Maria Cristina Guarnieri

Em Soren Kierkegaard e Nicholas Berdiaeff, o problema da distinção entre bem e mal é precedido por outro problema: o da liberdade divina e da liberdade humana. Nesse sentido, a questão do Mal estaria ligada não só ao conceito de liberdade como também ao problema de Deus. O mal, visto por Kierkegaard, é infinito e o bem, finito, o que por conseqüência acarreta a necessidade de repetição constante das ações positivas num esforço para combatê-lo. Em Berdiaeff, ao priorizarmos a existência, fundada na relação entre a liberdade de Deus e a liberdade do homem, teremos um entendimento tanto do mal como do bem como algo existente e não pensado pelo indivíduo. Se, como norma ética, pensarmos a vida como um bem supremo e como o último valor, estaremos entendendo que o bem significa levar a vida ao máximo e o mal significa tudo aquilo que diminui a vida e a conduz à morte ou ao não-ser. O pensador religioso aqui entende que o mal está identificado com o próprio indivíduo, por uma suposição ontológica: tanto Kierkegaard como Berdiaeff estão trabalhando a partir de uma antropologia – que será o objeto desta reflexão – que fala de um ser humano insuficiente, que se reconhece relativo, diante do Absoluto.

__________________________________________________________________________________________________________________________________________________________

O Mal na estética da Queda em Dostoiévski

Profa. Ms. Jacqueline Sakamoto

Para Dostoievski, o mal tem estatuto ontológico e está preso ao homem na afirmação orgulhosa de si mesmo, no egoísmo e no parasitismo levado até as suas últimas conseqüências. Acompanhamos em suas obras o movimento do orgulho como oposição polarizada da humildade; e que se encontra atrás da Queda, atrás da escolha humana pela autonomia. Para o autor, quando o homem proclama sua autonomia torna-se um impostor que busca nomear ou definir a si mesmo e o mundo, partindo de abstrações desconectadas com a vida, o que acaba por levá-lo a autodestruição e à destruição do mundo.

__________________________________________________________________________________________________________________________________________________________

anti-procriacionismo como crítica antropológica radical em Emil Cioran

Mestrando Rodrigo Inácio S. Menezes

O filósofo romeno Emil Cioran manifesta um pessimismo antropológico feroz, derivado da sua visão do homem como um animal “demoníaco”, concepção que se funda numa idéia religiosa: o pecado original. Este é afirmado por Cioran, sem a fé e em bases puramente filosóficas, como uma verdade antropológica inegável. Segundo o autor, o ser humano distingue-se da natureza, entre outras razões, por sua inclinação – consciente e volitiva – ao mal. Relacionado a essa concepção está também o seu horror ao casamento e à progenitura, que Cioran condena a partir de uma perspectiva gnóstica. Por fim, uma crítica antropológica contundente deveria levar-nos, segundo o filósofo, a pensar o problema em sua raiz: a presença (central) do homem na Criação.