Seminário NEMES

Ementas (junho 2018)


Os demônios da contemporaneidade produzindo seus medos

Profa. Dra. Maria Angélica Santana

O medo é um tema que está em evidência na atualidade e é produzido pelos demônios contemporâneos, pois diariamente temos que conviver com o temor da violência urbana, o medo de atentados terroristas, medo da guerra, medo de catástrofes naturais, medo do desemprego, medo da solidão e da exclusão. E, como meio compensatório, passamos a investir energia em meios que venham a provocar o “alívio” dessas sensações e angústias provocadas por esses medos infernais, meios esses que acabam por trazer mais ainda um vazio subjetivo e identitário. A fluidez dos laços e a fragilidade das relações são aspectos bem visíveis na atualidade, sendo a busca pelo novo constante, produzindo um homem sem referências, consumista exacerbado. Diante de tal realidade, esta reflexão propõe-se a caracterizar os medos produzidos pela contemporaneidade, procurando conhecer os fatores produtores de subjetivação; e fazendo uma análise sobre suas consequências para esse homem atual, sujeito ao acometimento de diversas neuroses, no qual o medo se apresenta de forma sorrateira, disfarçada e tácita.

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O horror do nada como um dos demônios do mundo contemporâneo: entre a contingência e a ausência de necessidade

Profa. Dra. Gabriela Bal

A meontologia, ou a “ontologia do nada”, na perspectiva de Sérgio Givone, “não se funda na necessidade lógica e ontológica do Ser, senão na absoluta contingência (liberdade) do Ser, na ausência absoluta (o nada) de necessidade”. O “além do Ser” – o que não é nem o “Ser”, nem o “não-ser” – não se deixa apreender, a não ser enquanto o nada, o nada de todas as coisas. Aproximar-se dessa perspectiva seria uma temeridade? Anterior ao Ser e seu fundamento, o “além do Ser” enquanto nada assusta, apavora, daí a necessidade dos ruídos, de estar ocupado e se ocupar o tempo todo. Os barulhos internos e externos que criamos para criar a ilusão da distância do nada, que nos intriga e apavora, corresponde a um dos principais demônios do mundo contemporâneo. Todos os ruídos que criamos, para não encarar a nossa liberdade, impedem que esta emerja do nada. Olhar para o nada a partir do mesmo nada, abandonar a ilusão que o Ser instaura, abre a possibilidade de um pensar, sentir e viver que abraça a totalidade e que inclui os opostos. A perspectiva a partir da qual o nada se coloca instaura uma ruptura que permite que se abra uma janela para a liberdade.

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Narcisismo e contingência: o amor nos códigos da clínica psicológica

Profa. Dra. Maria José Caldeira do Amaral

Nesta discussão, abordaremos questões que incidem na prática clínica contemporânea, colocadas principalmente por analistas e psicanalistas, questões essas que procuram dar uma maior atenção à dinâmica psíquica narcísica inerente ao processo analítico. Júlia Kristeva, que estará no centro desta discussão, convida-nos a atravessar os códigos da história do amor no ocidente para identificar a história da subjetividade no ocidente grego-cristão como uma elaboração do narcisismo. Para Freud, o amor proporciona o sentimento oceânico do narcisismo pleno. Nosso foco principal frente a essa antropologia da subjetividade amorosa é identificar as alterações de nosso próprio espaço psíquico, preenchido e determinado por uma contingência narcísica. Sendo assim, todo mal psíquico é um mal de amor, como Leda Tenório da Motta introduz no livro Histórias de Amor, de Julia Kristeva.

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A feiura como demônio na arte contemporânea

Profa. Dra. Wilma S. De Tommaso

Partindo-se da premissa de que nosso tempo é muito similar ao do Primeiro Milênio, época da queda da Antiguidade em que a cultura intelectual humanista era centralizada somente no homem, hoje somos testemunhas do colapso de uma época moderna que voltou a propor o mesmo impulso clássico, o Renascimento, com a forte irradiação de um epicentro único: o homem. A religião retrocede ao campo cultural e se converte em uma realidade marginal. No lugar do grupo se afirma o indivíduo. O século XX nos faz constatar que a arte se converte principalmente no campo da expressão e afirmação do sujeito. Na contemporaneidade a arte tem sido o confessionário do homem, é um grito da verdade existencial comprometida e e doente do ser humano de hoje. O que há no coração do homem? A arte expõe!

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A demonização da beleza: ressentimentos do mundo contemporâneo

Doutoranda Flavia Arielo

Se um dia Dostoiévski afirmou que a beleza salvaria o mundo, isso, de certa forma, o caracterizava como um homem de seu tempo. Dos gregos clássicos do século de Péricles ao Impressionismo do século XIX, o homem buscou em suas produções artísticas – tanto na arte quanto na literatura – reafirmar seu apreço e preferência pelas coisas belas. Mas a partir do século XX, o homem transmutou esse desejo e prazer na beleza em repúdio e ressentimento. Na era do ressentimento, como aponta Pondé, a beleza revela o vazio da existência, despertando a ira contra tudo aquilo que ela representou um dia como verdades imutáveis. O homem contemporâneo abandonou o louvor à beleza e a demonizou por não suportar a agonia do mundo, que até então era transformada e sublimada em grandes obras de arte sustentadas pela beleza. O que resta à sociedade contemporânea com essa renúncia e demonização da beleza? Acreditar nas mentiras de um mundo ressentido e politicamente correto.

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Pouco amor não é amor: Seria a falta de amor um demônio contemporâneo?

Mestranda Carla Almeida

Nelson Rodrigues, o Senhor da Palavras, alinhavou as letras e os afetos humanos com linhas que escorriam tragédia. O cheiro de amor e sexo estava sempre presente, e ele parecia retirar suas ideias de baús mergulhados no inconsciente. Tanto a dor do amor quanto a dor da morte foram temas em muitos de seus contos e peças, mas onde Nelson aprendeu realmente que “pouco amor não é amor” está para além de título de livro. Vivenciou na história de vida de seu irmão Mário Filho um amor que continuou para além da vida e para além da morte. Traçaremos aqui um percurso para evidenciar um amor de verdade, pois a violência do amor talvez seja um demônio que atormente nossa contemporaneidade. O amor demanda perder-se de si e nada melhor do que um trecho da própria vida de Nelson Rodrigues para exemplificar isso.

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Fragmentação e assimilação: Pastoral Americana de Philip Roth e Os Demônios de Dostoievski

Doutoranda Isadora G. Sinay

Em Os Demônios, Dostoiévski retratou os efeitos da fragmentação cultural entre os jovens. Em um momento de mudanças históricas profundas, a falta de enraizamento e a radicalização ideológica levaram a um profundo desprezo pela moral e pelo humano. É possível traçar um paralelo entre esse cenário e a “Grande Loucura Americana” identificada por Philip Roth nos Estados Unidos dos anos 60. Em Pastoral Americana, a rápida ascensão social dos judeus americanos, seguida por uma assimilação vista como necessária, erode o senso de identidade de Merry, levando-a a se tornar um Verkhovensky moderno.

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