Seminário NEMES

Ementas (dez 2017)

Kierkegaard e o cheiro do trágico

Profa. Dra. Maria Cristina M. Guarnieri

O pensador religioso Sören Aabye Kierkegaard (1813-1855), em seu livro A Repetição (1843), onde trabalha com o complexo conceito de repetição, cita à determinada altura do texto a seguinte frase: “Eu enfio meu dedo na existência e ela não tem cheiro algum”. Em uma análise sobre a vida, Kierkegaard apresenta na boca de um jovem apaixonado, que experimentou a perda de seu amor, uma angustiada reflexão sobre a realidade. O jovem mostra-se indignado, pois se encontra envolvido como um escravo nessa aventura chamada realidade, sem ter com quem reclamar, sem escolha, sem saber como tudo funciona, pois entende que, se é preciso se entregar à vida, seria melhor que a compreendêssemos. Diante da condição trágica que observa que não é possível pensar o sentido da vida sem considerar que o ser humano é ontologicamente inviável, Kierkegaard levanta questões que muitos de nós, provavelmente, já nos fizemos: O que fazemos por aqui? E se estamos aqui e gostamos daqui, ou pelo menos acreditamos que gostamos daqui, por que temos que deixar “o aqui”? O trágico é inexorável, e impõe uma limitação à existência, diferente do dramático, que abre para a vida uma variedade de escolhas que possibilitam, em cada indivíduo, uma abertura a um vir a ser; isto é, existir significa escolher, decidir a cada instante, possibilitando ou o ser ou o nada, em uma ação interior da liberdade. O nada é o cheiro de nossa condição e essa comunicação pretende acompanhar a preocupação com a subjetividade presente no pensamento de Kierkegaard, e o que emerge como reflexão a partir do cheiro do nada na existência.

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O Eclesiastes por André Comte-Sponville: o trágico e o insignificante

Anna Paula M. Haddad

A busca filosófica pelo sentido dos homens no mundo, e pela ordem moral que os contemple harmonicamente, é comparável ao moto da tríade sapiencial do cânon judaico (Provérbios, Eclesiastes e Jó). Nas palavras do filósofo francês André Comte-Sponville (1952-), no Eclesiastes, em especial, estamos diante de um dos livros mais belos da humanidade pelo seu impacto de verdade: texto de paradoxos, de sabedoria mais do que de fé; sabedoria cética quase desesperada. Em 2015, o professor que se demitiu da Panthéon Sorbonne para realizar conferências e escrever, escolhe abrir a coletânea conclusiva de sua obra com o ensaio “O Trágico e o Insignificante: a singularidade do Kohelet”, (Presses Universitaires de France – PUF). Trata-se do reconhecimento do kohelet – que se distancia da grecidade pela própria descrença na sabedoria – como marco na história do Ocidente para o trágico e o materialismo.

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Crucifixão: Tragédia e Redenção em Nicolas Berdiaev

Profa. Dra. Maria José Caldeira do Amaral

Com imagens do Cristo crucificado, tragédia e beleza para os cristãos, pretende-se expor o pensamento sobre o Belo em Nicolas Berdiaev (1874, Kiev-1948, Clamart). Segundo o autor, a filosofia da história só poderia ser compreendida como uma metafísica religiosa, pois o messianismo é um dos seus problemas capitais e, a forma ativa de compreender o Apocalipse significa que o fim do mundo pode ser ativamente preparado pelo homem; depende também da atividade humana, quer dizer, é uma obra teo-antrópica. A beleza não é apenas contemplação, mas também criação, vitória criadora contra a escravidão do mundo. Em seu pensamento, a arte do Renascimento contribuiu amplamente no processo da secularização.

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O Homem Trágico em Benjamin Fondane

Profa. Dra. Gabriela Bal

O homem trágico revela “o absurdo que acompanha as situações limite ou ainda ‘os momentos catastróficos da existência pessoal” (FOTIADE, 2006, p. 36). Não é possível dissociar a experiência vivida e os escritos do poeta que se tornou filosofo para encontrar em si mesmo as respostas à dor que apenas as suas poesias davam conta de expressar. A dor de um tempo que não passa e cujos reflexos se fazem sentir ainda hoje (e talvez mais fortemente), como um prenuncio de um tempo que não pode ser esquecido porque ainda não findou, pois como ele mesmo escreveu no final de seu poema Titanic, “o viajante ainda não findou sua viagem” (FONDANE, Le mal de phantômes, 2006, p. 146) e nós estamos aqui…

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Judaísmo, tragédia e o sobrenatural

Profa. Dra. Andréa Kogan

No livro Jewish views of the Afterlife (“Visões judaicas da vida após a morte”, sem tradução para o português), o autor Simcha Paull Raphaell faz a seguinte pergunta: “Há vida após a morte depois de Auschwitz?”. Tendo em mente esta reflexão, a comunicação tratará de alguns aspectos do pós-morte dentro do mundo judaico.

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A tragédia em Nelson Rodrigues: “Há, em qualquer infância, uma antologia dos mortos”

Carla de Almeida

Nelson Rodrigues escreveu suas obras com as tintas da contingência e perpassado por tragédias. Suas obras nos parecem feitas quase em confissão. Uma sequência de mortes afetou seu corpo, assim como a vida familiar dos Rodrigues. Talvez em função dessas tragédias, Nelson tenha dito que “Deus só frequentava as igrejas vazias”, lugar que o autor encontra para refletir sobre seus próprios pecados.

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O trágico e seus rastros em A Grande Beleza de Paolo Sorrentino

Doutoranda Flavia Arielo

Jep Gambardella está comemorando 65 anos. Em sua festa no terraço com vista para o Coliseu há mulheres lindas e todo tipo de ostentação que o dinheiro pode comprar. Entre beijos de felicitações e muita animação, Jep saracoteia entre os convidados ao ritmo frenético de um hit pop incessante. E então, a cena desacelera e o tempo é suspenso quando se ouvem os pensamentos de Jep pela primeira vez: “Para esta pergunta, quando jovem, meus amigos davam sempre a mesma resposta. A xana. Mas eu respondia outra coisa: o cheiro da casa dos velhos. A pergunta era: o que você mais gosta na vida? Eu estava destinado à sensibilidade”. É este dândi pós-moderno, construído por Paolo Sorrentino, que nos guiará ao longo do filme A Grande Beleza (2013). Jep é escritor de um único best seller que o tornou rico, porém apático diante da vida: o dinheiro, as mulheres e a fama trouxeram nada além de um profundo sentimento de contingência e vazio. A proposta desta comunicação é aproximar a visão do personagem ao sentimento trágico de vida, analisando suas declarações ao longo do filme pertinentes à natureza humana e esse sentimento de “controle de qualidade com a esperança” e de ataraxia que cabe ao universo trágico.

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