Seminário NEMES

Ementas (jun 2017)


As espiritualidades de vida e sua importância na criação de um novo ethos na sociedade brasileira contemporânea

Prof. Dr. Fábio Mendia

A partir dos anos 1960, desenvolveu-se um movimento contracultural, que se convencionou denominar de “Nova Era”, fortemente influenciado pela cosmovisão do esoterismo ocidental secularizado, conhecida como Ocultismo. Aos poucos a “Nova Era” foi se transformando, inserindo-se na sociedade de forma diversificada, sem líderes, nem escrituras, nem dogmas, nem grandes instituições. Começando na Europa e nos EUA, foi se expandindo globalmente, incorporando e influenciando culturas locais, a espiritualidade individual e mesmo as religiões tradicionais, inclusive as mainstream. Em virtude dessa nova configuração, alguns autores, como Paul Heelas, preferem atualmente chamar esse movimento de “Espiritualidades de Vida”. Apesar de diversificado, o movimento tem uma “matriz de sentido” que deriva de seu posicionamento de “acesso aberto à divindade”, o que inclui a ideia do “Self superior” dos indivíduos como uma fagulha divina ligada ao Todo. Entre seus objetivos está a evolução da consciência individual para alcançar a “consciência cósmica”, bem como a viabilização da fraternidade humana e a defesa da natureza sagrada. Portanto, tem um forte componente religioso; mas, para o público, é uma “religião invisível”, na definição de Knoblauch e Luckman.

Sua manifestação ultrapassa o campo religioso, gerando um novo ethos global. A ubiquidade desse ethos – com sua flexibilidade em acomodar visões distintas graças à ausência de dogmas, sua religiosidade “invisível”, e seu caráter plural, transcultural e transnacional – pode ser de grande ajuda para se conseguir um diálogo entre cosmovisões diferentes em torno de valores básicos, de políticas ambientais e internacionais em defesa dos direitos humanos e da liberdade religiosa.

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O homem contemporâneo: as religiões e o problema do sentido da vida

Profa. Dra. Maria Angélica Santana

Sem dúvida alguma, o século XX foi o século da ciência: a física desvendou mistérios do universo, a biologia revelou o segredo da vida, a medicina conseguiu duplicar a longevidade humana e a tecnologia transformou o nosso cotidiano. Mas as previsões de que Deus não seria mais necessário ao homem, e que as manifestações religiosas passariam a fazer parte do mundo das crenças e das superstições com o avanço do conhecimento científico, não se concretizaram. Em pleno século XXI, as religiões estão mais vivas do que nunca. Todas as sociedades têm uma configuração religiosa, mesmo as mais remotas. O homem sente a necessidade de realizar uma busca contínua por verdades e certezas porque, apesar de todos os avanços, a ciência não consegue explicar tudo, e a sacralização da vida é uma das formas de atribuir sentido ao fato de existir.

O homem contemporâneo também está preocupado com o desemprego, as desilusões amorosas, as doenças, problemas identificados com o mal. É difícil lidar com essas questões, emocionalmente e na prática; sendo assim, a busca pela salvação, que também é uma luta contra o mal, deve fazer com que esses conflitos do cotidiano sejam resolvidos por intermédio do contato com a divindade. Por isso, cresceu a adesão às instituições que prometem resoluções para eles. É o caso da maioria das religiões neopentecostais, com sua teologia da prosperidade. As religiões permitem, ainda, que o ser humano exerça sua subjetividade, por serem repletas de símbolos. Os símbolos são mensagens subjetivas. O sujeito os incorpora, entende e expressa de acordo com sua vivência cultural.

Por ser parte integrante da cultura humana, assim como a arte, a ciência e a filosofia, a religião continuará a existir, independentemente do estágio de desenvolvimento tecnológico da sociedade, devido a sua grande capacidade de adaptação. Deus é histórico e, enquanto o homem tiver questões sem respostas, ele as buscará na religião. Portanto, sempre haverá uma brecha na qual um ser superior ou explicações transcendentais se instalarão. Pela trajetória histórica da sociedade, será difícil o ser humano abrir mão da crença num ser que transcenda a materialidade.

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Psicologia e religião: a experiência de Deus e a Psique hoje

Profa. Dra. Maria José Caldeira do Amaral

A experiência de Deus é um dado psíquico e um dado teológico, mesmo considerando a controvérsia e a fragilidade epistêmica dessa afirmação que nos é oferecida pelas pesquisas no campo das duas áreas de conhecimento. Sabemos, também, que existe uma afinidade entre a experiência de Deus e a psique humana, afinidade essa que se configura como objeto da Psicologia e da Religião. Diante dessa afinidade, na qual a experiência humana implica em sua interioridade, a compreensão ampliada dessas mesmas experiências, em nossa vida contingente, encontra uma receptividade no colo de temas teológicos profundos. Em síntese, o apelo de nossa consciência, de nossa alma, sendo ela representada e simbolizada também por motivos teológicos (o amor, a morte, a eternidade, o julgamento da alma, de onde viemos, para onde vamos, a cura, o bem, o mal, etc), possui uma intimidade com as preocupações filosóficas, configurando assim o apelo de uma manifestação espontânea e reencontrada nesses dois campos de conhecimento.

Nosso objetivo nesta comunicação é apontar para o caráter sui generis da pesquisa em Ciências da Religião e da Psicologia do Inconsciente, considerando a Psicologia como uma das Ciências da Religião e, assim, considerar os desdobramentos dos postulados da Psicologia Analítica de Carl Gustav Jung para o estudo da Religião.

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Pode a religião nos conectar à beleza?

Doutoranda Flávia Arielo

“Se há alguém indiferente à beleza, sem dúvida é porque não a percebe”. Nesta frase do filósofo conservador Roger Scruton habita o cerne de uma das maiores preocupações da estética: a beleza. Essa dúvida não paira somente sobre os ombros da estética, mas é também uma dúvida da humanidade como um todo, já que a beleza demonstrou e demonstra ser uma ocupação absolutamente antropológica. Em outras palavras, o homem se apropriou não apenas do conceito de beleza, mas principalmente de sua produção através de veios artísticos. Refletindo sobre isso, uma questão vem à baila: o que nos conecta às formas e preceitos da beleza? Uma das possibilidades de respostas a esta pergunta é a religião. Da pré-história ao mundo moderno a presença divina ou religiosa é uma constante como referência e leitmotiv na confecção de monólitos, estátuas, estruturas arquitetônicas, quadros e tantas outras formas de expressão artística. Mas, afinal, pode a religião realmente conectar o homem à beleza? A proposta aqui é defender a resposta positiva a esta questão, analisando brevemente a presença e importância da religião na história da arte ocidental, enfatizando o caráter religioso da beleza presente em obras artísticas ao longo da história. Para tanto, alguns autores farão coro a esta análise: o já citado Roger Scruton e também Umberto Eco, Wassily Kandinsky e Erwin Panofsky.

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Mircea Eliade e o Apocalipse de Coppola

Mestranda Mirella Giglio

Mircea Eliade deixou textos importantes sobre a história das religiões, filosofia, visão do homem e sobre mitologia. Seu legado ainda contribui para pesquisadores das Ciências da Religião, História, Antropologia, Psicologia, Filosofia e também influencia diversos artistas. O diretor de cinema Francis Ford Coppola lançou o filme Apocalypse Now em 1979, baseado no romance Coração das Trevas, de Joseph Conrad. O filme mostra a estória de um capitão do exército americano que aceita a missão de ir ao encontro de Kurtz, um comandante americano com fama de ter enlouquecido. A ação se passa durante a guerra do Vietnã, e retrata a visão de Copolla sobre a guerra e sobre os seres humanos. Essa guerra foi uma tentativa dos americanos impedirem que o Vietnã se tornasse um país comunista.

A visão de mundo de Eliade pode ser utilizada tanto para explicar o esforço dos americanos contra o comunismo, quanto o significado do personagem Kurtz. Eliade descreve o mundo como aquilo que conhecemos, onde habitamos, o nosso cosmos. Tudo que não pertence a esse espaço conhecido é visto como caos, onde habitam os demônios, a desordem. Podemos interpretar essa estória cinematográfica como a narração de um mito, pois ela narra a jornada de um herói em busca de algo sagrado. O protagonista do filme navega em águas desconhecidas, enfrentando trevas e morte, e renascendo a partir do encontro com Kurtz. Assim como um paciente de psicoterapia profunda, ele aceita o convite de penetrar nas trevas do inconsciente de forma iniciática. O filme é rico em símbolos arquetípicos, como a lua, as águas, o sol, entre outros que são descritos na obra de Eliade.

Podemos concluir que os termos descritos por Mircea Eliade podem ser utilizados como recurso para enriquecer a experiência de quem assiste Apocalypse Now, amplificando a compreensão que temos sobre o ser humano.

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A segunda dimensão do pensamento na obra de Benjamin Fondane e Léon Chestov

Profa. Dra. Gabriela Bal

É partir do desespero, no sentido bíblico daquele que clama das profundezas (De profúndis clamávi ad te, Dómine – “Das profundezas, clamo a ti, Senhor”, Salmo 129) que Chestov (1866-1938) e Fondane (1898-1944) começam a estabelecer uma possível correlação entre a filosofia existencial e a verdade revelada nas escrituras. O que transparece à primeira vista, por trás do pensamento destes dois filósofos, é a “luta contra as evidências da razão”, como a sua marca mais pungente, seguida, na outra ponta, por aquilo que vieram a denominar como a segunda dimensão do pensamento, ou a fé, pois para eles “a fé começa precisamente lá onde termina o pensamento”, ou melhor dizendo, a fé nasce a partir do paradoxo e do absurdo.

Fondane e Chestov se propuseram, em seus escritos e nas suas vidas, a integrar o paradoxo, a contemplar a “irresignação” e a fé enquanto exigências existenciais, e mais, enquanto urgência de transcendência. Os limites da razão nunca representaram para eles um limite intransponível, mas sim um impulso para ir “além”, além da razão e de suas limitações. Sempre que os nossos filósofos se viram diante deste limite, como um abismo, eles vieram a recorrer ao pensamento de Plotino (205-270), filósofo neoplatônico que primeiro anteviu, contemplou e indicou uma via que aponta para a existência de um além da razão e que agora lhes caberia, anunciar e, ao mesmo tempo, denunciar os desmandos da supremacia da razão e suas consequências na história humana.

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O conflito entre Religião e Ciência visto no embate entre Existência e Metafísica: contribuições kierkegaardianas

Prof. MS. Carlos Alberto A. A. de Sousa

Nossa inspiração para apresentar este trabalho parte da leitura da crítica de Søren Kierkegaard ao sistema metafísico hegeliano. Para Kierkegaard, “cada individuo é incomensurável para o conceito”. Sua crítica ao sistema filosófico que tenta explicar a existência, reduzindo o existir a uma grade conceitual, passa pela distinção entre a abordagem das questões da vida por um pensador existencial e por um filósofo sistemático (vide Diários e Pós-escritos às Migalhas Filosóficas). Para este último, a metafísica, enquanto cerne e raiz da Filosofia, nos diz com propriedade no que consistem os problemas essenciais da existência humana, e suas possibilidades de respostas. Nessa perspectiva, a filosofia sistemática – e a própria ciência – desvendariam os drama da vida humana. Por outro lado, o pensador existencial, ciente da impotência da filosofia especulativa em abarcar a vida humana concreta, busca uma compreensão situacional mergulhando nos dramas e conflitos vividos por ele mesmo; ele está totalmente implicado no que faz. Sua reflexão sobre o sentido da existência, mesmo sendo uma reflexão racional, não desconsidera o papel importante das paixões, da vontade e do amor para a construção e compressão da vida humana e sua busca de sentido.

Partindo dessa reflexão, gostaríamos de considerar o conflito entre ciência e religião, desde o início da modernidade, como um conflito entre duas modalidades de pensamento, ou entre dois personagens: o pensador conceitual e o pensador existencial. Nessa perspectiva, temos duas abordagens da vida, do pensamento e da realidade. Uma abordagem que se pretende puramente objetiva, imparcial, neutra e científica do mundo, onde se procura resolver as questões fundamentais da estrutura da realidade, mas na qual o sujeito – em sua dimensão existencial, prática e dramática – tenta ficar de fora dessa abordagem ao lidar com seus objetos de pesquisa. É a típica relação cognitiva entre Sujeito e Objeto. Já o pensamento existencial e situacional (vide Abraham J. Heschel), próprio de quem vive suas crenças, é marcado pela presença do sujeito imerso em seus dramas e buscas. Assim a religião, locus de um pensamento situacional onde o crente está totalmente imerso e envolvido, diferencia-se da apreensão metafísica do mundo produzida pelo filósofo ou pelo cientista.

Talvez a incompreensão, ou mesmo o conflito, entre ciência e religião seja um reflexo da tomada de posição diante da vida e de seus problemas: na religião, a vida concreta é sempre exigida, tomada e transformada; na ciência, é apenas um objeto a ser explicado. Talvez a dificuldade da inteligência científica e sua crítica para com a religião esteja no fato de que esta não se compreende sem uma vivência; ou seja, a religião exige imersão para a sua compreensão; exige a vida e impõe-se como um modo de vida, assim como a filosofia em seus primórdios (vide Pierre Hadot). A religião não é algo essencialmente que se pensa, mas algo que se vive. Tem muito mais a ver com o “fazer” do que com o “pensar” (vide Karen Armstrong).

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Resposta à questão “qual a relevância de se estudar religião no mundo contemporâneo?”

Prof. Dr. Andrei Venturini Martins

Pretendo pensar algumas hipóteses que poderiam justificar o estudo da religião no contemporâneo: a religião pode ser o ponto de partida de uma cultura; instrumento que relativiza o progresso ao pensá-lo em termos morais; sistema capaz de contrapor verdade e utilidade; sistema de sentido na era do vazio; e instrumento de erotismo em tempos de sexo instintivo, ou seja, em um contemporâneo no qual o ato sexual é visto como pura atividade biológica.

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Qual a relevância de se estudar judaísmo no mundo contemporâneo?

Prof. Dr. José Luiz Bueno

O grupo NEMES tem se dedicado ao estudo da filosofia judaica contemporânea por entender que esta é uma área a ser explorada no campo acadêmico com grande ganho. Neste ano, os estudos se concentram na obra e no pensamento de Abraham Joshua Heschel. Nesta comunicação, pretendemos abordar aspectos desta pesquisa e propor um diálogo com a contemporaneidade a partir de algumas noções heschelianas, e também de outros pensadores judeus que já foram objeto de estudo no grupo. O objetivo é a apropriação de categorias de pensamento judaico que ofereçam recursos para se pensar a condição humana na contemporaneidade e, assim, ressaltar a importância do estudo da filosofia judaica contemporânea e sua contribuição para o pensamento filosófico atual.

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