Seminário NEMES

Ementas


“Não amarás a solidão de tua gente”: uma análise do ethos religioso na literatura de Franz Kafka

Eduardo Oyakawa (Doutorando)

Para Kafka, a solidão não significa uma anomalia da condição humana, ao contrario, denota sua mais profunda marca distintiva. Suas personagens ilustram o absurdo dessa ontologia, na qual estar entre os homens tantas vezes significa mais perde-los do que encontra-los. A solidão em Kafka é um affectus que cinge o mundo humano e que o faz copia banal de uma natureza cruel e indiferente ao drama humano.

Eduardo Oyakawa é sociólogo, poeta e doutorando em Ciência da Religião. Autor de “Lâminas do Cotidiano”, “O azul dos dias”, “A espiritualidade da palavra” e “Arrheton: desejo e vida no teu olhar”

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Identidade e Antissemitismo em Arthur Miller

Isadora G. Sinay (Doutoranda)

Arthur Miller é um dos grandes nomes da dramaturgia americana. Em suas peças, ele criticou valores centrais da cultura americana e é tido como um feroz crítico da intolerância e totalitarismo. No entanto, ao mesmo tempo, ao longo de toda sua carreira, tratou de questões específicas judaicas, principalmente em seu contexto de judeu-americano. Essa apresentação se propõe a analisar esses elementos, traçando a relação entre Miller, a cultura americana e o antissemitismo existente no país.

Isadora G. Sinay é doutoranda em Estudos Judaicos pela USP, onde pesquisa literatura judaica-americana, em especial a ficção de Philip Roth. É mestre em Ciências da Religião pela PUC-SP com uma dissertação a respeito do silêncio de Deus no cinema de Ingmar Bergman. Trabalha com a relações entre religião, filosofia, cinema e literatura.

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K. – Contingência, Memória e Política: a busca de um pai judeu pelo corpo de sua filha

Nathalie Hornhardt (Mestre)

A obra “K. – Relato de Uma Busca”, de Bernardo Kucinski, mescla realidade e ficção. O romance permeia a angustiante busca de um pai judeu por uma filha que desapareceu na época da ditadura militar. Incertezas cerceiam a vida desse homem que se vê à beira de um abismo, diante da ausência irremediável do corpo da filha. Partindo do livro, temas como luto, memória, insuficiência humana e o preenchimento do homem serão trazidos à tona.

Nathalie Hornhardt é professora de Mídia e Religião da Faculdade de Comunicação da FAAP. Mestre em Ciências da Religião pela PUC-SP com a dissertação “Quando o Santo é Forte: Uma discussão sobre a insuficiência humana no documentário de Eduardo Coutinho”. Colunista do site Update or Die. Pesquisa as relações entre arte, novas espiritualidades, narcisismo e comportamento contemporâneo.

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Assimilação artística: de judeu a artista moderno

Profa. Dra. Wilma Steagall De Tommaso

O temor pela idolatria na religião judaica proíbe a representação de imagens da figura humana ou de animais, pássaros e peixes. Artistas plásticos judeus só surgem no século XIX, na Europa, quando os processos de expansão da igualdade e da extensão da cidadania iniciaram uma abertura e começaram a corroer o muro interno da lei judaica. É o caso de Lasar Segall, nascido em 1891 em Vilna, Lituânia, pertencente a um importante grupo de judeus artistas da Europa do Leste que imigraram para o Ocidente em busca de melhores oportunidades. Segall escolheu o Brasil. É sobre ele, sua vinda e sua obra que abordaremos no Seminário Nemes 2016.

Wilma Steagall De Tommaso é Doutora em Ciências da Religião pela PUC-SP. Professora no Museu de Arte Sacra de São Paulo (MAS SP). Membro Pesquisadora da Sociedade Brasileira de Teologia e Ciências da Religião (SOTER). Possui experiência nas áreas de Educação e Filosofia, com ênfase em Arte Sacra.

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O judeu-hifenizado e a modernidade

Andréa Kogan (Doutoranda)

De acordo com o sociólogo Bernardo Sorj, a identidade judaica sempre foi hifenizada: judeu-brasileiro, judeu-israelense, judaísmo-alemão. Mais especificamente nos séculos XX e XXI, torna-se possível uma maior quantidade de “adjetivos”, como judeu-ateu, judeu-budista, judeu-espírita, judeu-reformista, judeu-ortodoxo. Como lidar com tanta diversidade?

Andréa Kogan é professora e doutoranda em Ciências da Religião. Estuda judaísmo e espiritismo, e tem interesse em judaísmo contemporâneo e filosofia judaica.

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Santa Muerte: a luz sobre o lado sombrio da sociedade

Mirella Giglio (Mestranda)

A Santa Muerte é uma santa com aproximadamente 10 milhões de devotos na Argentina, na população latina residente nos Estados Unidos, mas principalmente no México. Seus devotos são conhecidos por serem os traficantes, os mais humildes ou os marginalizados pela sociedade. Os devotos da Santa fazem pedidos sobre o cotidiano, pedidos de melhoras nos negócios, amor e saúde, sem necessidade de consultarem um médico. Nos cultos não há uma figura intermediária entre os devotos e a Santa, pois cada indivíduo tem uma relação específica com a divindade. Essa relação não é caracterizada como uma ligação com o divino, mas sim como a de um cliente, de alguém que faz um pedido e paga pelo que recebe. É a partir dessa Santa que esses devotos podem sentir-se pertencentes a um grupo dentro da sociedade. A divindade é uma forma de externalizar os aspectos sombrios da psique dos indivíduos que a cultuam.

Mirella Giglio é psicóloga e mestranda em Ciências da Religião na PUC-SP. Estuda depressão e os seus símbolos na obra literária “Coração das Trevas”

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Ética e geopolítica: a justiça levinasiana no contexto geopolítico contemporâneo

Profa. Dra. Maria Angélica Santana

O trabalho quer refletir a relação entre ética e política a partir da categoria de Alteridade em Levinas. A presença do Outro diante do Eu, na perspectiva da autonomia moderna, é uma presença subjugada e dominada. Levinas fez um alerta na obra “Totalidade e Infinito”, dizendo que o face a face, por si só, não possibilitaria o pensar a edificação da sociabilidade humana — é neste aspecto que a ética proposta por Levinas tem uma prescrição política. Após identificar as condições nas quais se dá o confronto e a atualização da ética, da política e da sociabilidade, mais facilmente se compreende como se justifica a ética e a política em Levinas. A política “acontece” com a chegada do Terceiro, sobre os parâmetros que dizem respeito à organização da pluralidade humana. A justiça acontece com a necessidade de comparar o Outro ao Terceiro. O encontro tem sentido como realização da justiça. A significância que motiva o agir ético não está mais polarizado no ser, mas no movimento do que vai em direção ao Outro para instaurar a paz e a justiça. Para Levinas, essa seria a fonte de legitimidade do Estado; e se o Estado não cumprisse essa vocação, se não permitisse as relações interpessoais ou ocupasse o lugar delas, seria ilegítimo. A política é o momento em que o Eu se abre à alteridade do outro, ficando em alerta da responsabilidade pelo Outro na relação do face a face. A política começa no instante em que a subjetividade humana — plenamente alerta de sua responsabilidade pelo outro, pelo face a face — toma consciência da presença do Terceiro. Isto significa fazer uma destituição do sujeito autônomo da modernidade de seu poder de legislar os princípios que regem a dimensão da justiça.

Maria Angélica Santana é Mestre e Doutora em Ciência da Religião, professora de Filosofia, Ética e Sociedade. Na UNESP Campo experimental baixada Santista, é pesquisadora dos conceitos de desejo metafísico, desejo do infinito e rosto na ética de Emmanuel Lévinas. Voluntaria na Congregação Santista de Surdos como coordenadora dos cursos de artesanato e culinária do EJAS Ed. de Jovens e adultos Surdos.

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Leo Strauss e a crise da modernidade como crise moral

Prof. Dr. José Luiz Bueno

O filósofo Leo Strauss debruçou-se sobre o problema da chamada “crise da modernidade”, que teve como sua face mais cruel os grandes conflitos mundiais do século XX. Em sua análise, esta crise tem suas raízes na perda da capacidade da razão moderna em produzir um pensamento moral que não se reduza ao historicismo e ao niilismo. Compreender a situação contemporânea requer o reconhecimento de que a civilização ocidental se ergue sobre seus dois grandes fundamentos, Jerusalém e Atenas. O distanciamento destes seus dois alicerces produz a fragilidade do pensamento moral e político que compõe a base da crise da modernidade. Voltar a essas raízes assemelha-se a uma dupla teshuvá (retorno, na tradição judaica). É esta perspectiva do pensamento de Leo Strauss que pretendemos abordar.

José Luiz Bueno é professor de Filosofia. Bacharel e Mestre em Filosofia, Doutor em Ciências da Religião pela PUC-SP. Pesquisa a obra de Franz Rosenzweig e suas áreas de interesse são Filosofia da Religião e Filosofia Contemporânea.

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A existência diante do nada na crise da modernidade

Profa. Dra. Maria Cristina Mariante Guarnieri

O significado do Shabat é celebrar o tempo. Um tempo que é sagrado e por isso é o coração da existência. Com essa ideia, Abraham Joshua Heschel trabalha o sentido da observância do ritual judaico, propondo uma reflexão sobre a conquista do tempo – todo alcance tecnológico de nosso tempo – em detrimento de viver o próprio tempo. Espaço e tempo tornam-se categorias fundamentais para compreender mais sobre os eventos significativos e sua importância na modernidade.

O homem moderno parece desprezar a questão do tempo e se ilude que pode conquistá-lo. E essa ilusão tem na morte um de seus maiores confrontos. Nosso intuito nessa comunicação é trabalhar com dois textos cujo tema básico trata da observância do Shabat: o último ensaio do neurologista Oliver Sacks e o pequeno livro do Heschel, ambos com o mesmo título “Shabat”.

Maria Cristina Mariante Guarnieri é Doutora em Ciências da Religião, psicóloga clínica, professora do Instituto Junguiano de Ensino e Pesquisa (Ijep) e atual presidente da Associação Brasileira de Filosofia da Religião (ABFR).